Professor Renato criticou a classificação de pessoas por características corpóreas
O racismo não é só um resquício do passado escravocrata brasileiro. Ele é um sistema complexo que articula muitos elementos de um sistema de dominação e é um dado funcional para o nosso modelo de sociedade. O racismo é, portanto, essencial ao capitalismo. Essas foram assertivas do professor e pesquisador Renato Emerson dos Santos, que proferiu a conferência Relações raciais no espaço urbano no Brasil”, ontem à noite, dentro da programação do 2º Encontro de Culturas Negras do IFG.
Renato é coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Geografia, Relações Raciais e Movimentos Sociais, da Faculdade de Formação de Professores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Na conferência de ontem, surpreendeu ao relacionar racismo e capitalismo, criticando este modo de produção que, segundo reforçou, está assentado na dominação e em várias hierarquizações, da de classes à espiritual.
“O Brasil é um país que deu, em cem anos, um salto econômico incomparável. Passamos de país produtor de café, açúcar e borracha à sétima economia do mundo, com ampla capacidade produtiva. Entretanto, continuamos a ter uma das maiores concentrações de riqueza do planeta”, afirmou. Segundo ele, a concentração de riquezas não se dá somente na distribuição da renda, mas também no acesso a bens e serviços, como saúde e educação. E esse padrão depende da dominação racial e também de gênero.
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Renato enfatizou que as desigualdades raciais estão presentes no Brasil e que indivíduos que desempenham as mesmas funções têm salários diferenciados. Ele explicou que muitas vezes essa diferença não se dá no salário nominal, mas se dá na ascensão vertical e na seletividade presente nos postos de trabalho com melhor remuneração. “Isso acontece até na educação. Na escola pública há muitos professores negros; nas escolas particulares elitizadas praticamente não há”, comentou.
O pesquisador falou também da natureza do fenômeno do racismo. Segundo ele, a sociedade brasileira tem em seu processo de formação grupos de origens distintas, mas que foram classificados pela categoria raça. “Raça não é uma categoria natural; é social. É uma classificação formal baseada em diferenças corpóreas que não são significativas”, protestou.
Numa brincadeira com a plateia, Renato perguntou o que todos achariam se ele defendesse uma teoria de classificação dos seres humanos pelo tamanho da orelha. “Soa ridículo pensar numa classificação assim, mas no cotidiano das relações sociais, as pessoas se comportam classificando os seres humanos com base na cor da pele ou do tipo de cabelo”, completou.
Ele lembrou que, no caso do Brasil, há uma correlação da raça com a geografia. Negros são relacionados à África; brancos, à Europa; índios, às Américas. “Construímos identidades geoculturais, que podem ser questionadas de diferentes formas. A Europa não é um continente; imigrantes sírios não são brancos europeus”, afirmou.
Renato criticou ainda a academia, por legitimar em muitos campos do saber essa classificação baseada no fenótipo, que a biologia e a genética já mostraram ser insuficientes para classificações humanas.
Diretoria de Comunicação Social/Reitoria.
Fonte: https://w2.ifg.edu.br/index.php/component/content/article/1-news/89853


